domingo, 16 de fevereiro de 2020

Sr Tocador de Tamborim




Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Não estou com sono e não estou indo a lugar algum
Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Na aguda manhã desafinada eu o seguirei

Embora eu saiba que o império da noite retornou ao pó
Varrido de minha mão
Deixando-me cegamente aqui parado, mas ainda não dormindo
Meu cansaço me espanta, estou plantado por meus pés
Não tenho quem encontrar
E a velha rua vazia está muito morta para sonhar

Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Não estou com sono e não estou indo a lugar algum
Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Na aguda manhã desafinada eu o seguirei

Leve-me a uma viagem em sua mágica nave ressoante
Meus sentidos foram arrancados, minhas mãos não podem segurar
Meus pés estão muito dormentes para pisar
Esperando apenas minhas botas para perambular
Estou pronto para ir a qualquer lugar, estou pronto para desaparecer
Em minha própria parada, lance seu feitiço dançante em meu caminho
Eu prometo segui-lo

Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Não estou com sono e não estou indo a lugar algum
Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Na aguda manhã desafinada eu o seguirei

Embora você possa ouvir-me rindo, girando, dançando loucamente através do Sol
Não está vendo ninguém, está só fugindo correndo
Pois no céu não há cercas revestidas
E se você ouvir traços vagos de rimas enroladas
Para o seu tamborim no momento, é apenas um rude palhaço atrás
Eu não lhe prestaria atenção
É apenas a sua sombra que ele está perseguindo

Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Não estou com sono e não estou indo a lugar algum
Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Na aguda manhã desafinada eu o seguirei

Então me faça desaparecer através dos anéis de fumaça de minha mente
Abaixo das ruínas nebulosas do tempo, passando ao longe das folhas congeladas
O assombro, árvores assustadoras, para fora da praia ventosa
Longe do alcance distorcido da tristeza insana
Sim, para dançar sob o céu de diamantes com uma mão acenando livremente
Em silhueta para o mar, circulado por areias circulares
Com toda a memória e destino navegando profundamente abaixo das ondas
Deixe-me esquecer do hoje até amanhã

Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Não estou com sono e não estou indo a lugar algum
Hei! Sr. Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim
Na aguda manhã desafinada eu o seguirei



Sir Bob Dylan











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Furacão



Tiros de revólver ressoam na noite dentro do bar
Entra Patty Valentine vinda do salão superior
Ela vê o garçom numa poça de sangue
Solta um grito "meu Deus, mataram todos eles!"
Aí vem a história do Furacão
O homem que as autoridades acabaram culpando
Por algo que ele nunca fez
Colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial

Três corpos deitados ali é o que patty vê
E outro homem chamado Bello rodeando misteriosamente
"Eu não fiz isso" ele diz e joga os braços pra cima
"Estava só roubando a registradora, espero que você entenda.
Eu os vi partindo" ele diz e para
"É melhor um de nós ligar pros tiras"
E assim Patty chama os tiras
E eles chegam na cena com suas luzes vermelhas piscando
Na noite quente de New Jersey

Enquanto isso, bem longe, em outra parte da cidade
Rubin Carter e uns dois amigos estão dando algumas voltas de carro
O pretendente número um à coroa dos pesos-médios
Não tinha ideia do tipo de merda que estava para baixar
Quando um tira o fez parar no acostamento
Igualzinho à vez anterior e à outra vez antes dessa
Em Paterson é assim mesmo que as coisas rolam
Se você é negro, melhor nem aparecer na rua
A não ser que queira atrair uma batida policial

Alfred Bello tinha um parceiro e ele soltou um papo atrás dos tiras
Ele e Arthur Dexter Bradley estavam só fazendo uma ronda
Ele disse "vi dois homens saírem correndo
Eles pareciam pesos-médios
Pularam dentro de um carro branco com a placa de outro estado"
E a senhorita Patty Valentine apenas assentiu com a cabeça
Um tira disse: "esperem um minuto, rapazes, este aqui não está morto"
Então o levaram à enfermaria
E embora esse homem mal pudesse enxergar
Disseram a ele que podia identificar os culpados

As 4 da manhã eles arrastam Ruby consigo
O levam para o hospital e o trazem escada cima
O homem ferido olha pra cima através de seu único olho moribundo
Diz, "por que vocês o trouxeram aqui dentro? Não é esse o cara!"
Sim, eis aqui a história do Furacão
O homem que as autoridades acabaram culpando
Por algo que ele nunca fez
Colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial

Quatro meses depois, os guetos estão em chamas,
Rubin está na América do Sul, lutando por seu nome
Enquanto Arthur Dexter Bradley continua no ramo do assalto
E os tiras estão apertando-o
Procurando alguém pra culpar.
"Lembra daquele assassinato que aconteceu num bar?"
"Lembra que você disse ter visto o carro fugitivo?"
"Você acha que está a fim de brincar com a lei?"
"Não acha que talvez tenha sido aquele lutador que você viu correndo pela noite?"
"Não se esqueça de que você é branco"

Arthur Dexter Bradley disse: "não tenho muita certeza."
Os tiras disseram: "um rapaz como você precisa de uma folga da polícia
Te pegamos por aquele serviço no motel e agora estamos conversando com seu amigo Bello
Agora, você não quer ter de voltar pra cadeia, seja um sujeito legal.p
Você estará fazendo um favor a sociedade.
Aquele filho-da-puta é valente e está ficando cada vez mais.
Nós queremos botar o rabo dele pra fritar
Queremos pregar esse triplo assassinato nele
O cara não é nenhum cavalheiro"

Rubin podia apenas nocautear um cara com apenas um soco
Mas nunca gostou muito de falar sobre isso
"É meu trabalho", diria, "e eu o faço para ser pago
E quando isso termina, prefiro cair fora o mais rápido possível
Na direção de algum paraíso
Onde riachos de trutas correm e o ar é ótimo
E andar a cavalo ao longo de uma trilha"
Mas aí o levaram para a cadeia
Onde tentaram transformar um homem num rato

Todas as cartas de Rubin já estavam marcadas
O julgamento foi um circo de porcos, ele não teve a menor chance
O juiz fez das testemunhas de Rubin bêbados das favelas
E para os brancos que assistiam, ele era um vagabundo revolucionário
E para os negros, apenas mais um crioulo maluco
Ninguém duvidava que ele tinha apertado o gatilho
E embora não conseguissem produzir a arma
O promotor público disse que era ele o responsável
E o juri, todos de brancos, concordou

Rubin Carter foi falsamente julgado
O crime foi de assassinato "em primeiro grau", adivinha quem testemunhou?
Bello e Bradley, e ambos mentiram descaradamente
E os jornais, todos pegaram uma carona nessa onda
Como pode a vida de um homem desses
Ficar na palma da mão de algum tolo?
Vê-lo obviamente condenado numa armação
Não teve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha de morar numa terra
Onde a justiça é um jogo

Agora todos os criminosos em seus paletós e gravatas
Estão livres para beber martínis e assistir o sol nascer
Enquanto Rubin fica sentado como buda em uma cela de 3 metros
Um homem inocente num inferno vivo
Essa é a história do Furacão
Mas não terá terminado enquanto não limparem seu nome
E devolverem a ele o tempo que serviu
Colocado numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial


Sir Bob Dylan



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domingo, 9 de fevereiro de 2020

A ansiedade do Destino e da Morte






The Anxiety of Fate and Death
Fate and Death are the way in which our ontic self-affirmation is threatened by nonbeing. "Ontic", from the Greek "on", "being", means here the basic self-affirmation of a being in its simple existence. [Onto-logical designates the philosophical analysis of the nature of being].
The anxiety of fate and death is most basic, most universal, and inescapable. Even if it so called arguments for the "immortality of the soul" had argumentative power, which they do not have, they would not convince existentially.
For existentially everybody is aware of the complete loss of self which biological extinction implies.
The unsophisticated mind knows instinctively what sophisticated ontology formulates: that reality has the basic structure of self-world correlation and that with the disappearance of the one side of the world, the other side, the self, also disappeared, and what remains is their common ground but not their structural correlation.
The anxiety of death is the permanent horizon within which the anxiety of fate is at work.

#Philosophy, #being, #onticdesignation, #fate, #anxiety, #contingency, #death, #ontologicalstructure, #existence




A Ansiedade do Destino e da Morte _ O destino e a morte são a forma como nossa autoafirmação onética é ameaçada por não ser. "Ontic", do grego "on", "ser", significa aqui a autoafirmação básica de um ser em sua simples existência. [Onto-logical designa a análise filosófica da natureza do ser]. A ansiedade do destino e da morte é mais básica, universal e inevitável. Mesmo que os chamados argumentos para a "imortalidade da alma" tivessem poder argumentativo, o que eles não têm, eles não convenceriam existencialmente. Pois existencialmente todos estão cientes da completa perda de si mesmo que a extinção biológica implica. A mente pouco sofisticada sabe instintivamente o que a ontologia sofisticada formula: que a realidade tem a estrutura básica da correlação auto-mundo e que com o desaparecimento de um lado do mundo, do outro lado, do eu, também desapareceu, e o que resta é seu ponto comum, mas não sua correlação estrutural. A ansiedade da morte é o horizonte permanente dentro do qual a ansiedade do destino está no trabalho. #Philosophy, #being, #onticdesignation, #fate, #anxiety, #contingency, #death, #ontologicalstructure, #existence



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domingo, 2 de fevereiro de 2020

Mente Aberta





o nosso conselho sincero é que se afastem daquilo que lhe proponham como proposta única e exclusiva para salvação. Qualquer proposta de pensamento assim, enquanto extrema ordem de conduta, é doutrinário e fundamentalista, não é um um bom caminho, principalmente porque a proposta será 100% garantida por humanos. Espíritos de Luz não forçam outros adquirirem conhecimento verdadeiro, isso é a premissa do bem: deixar exemplos de atitudes para que os demais percebam e aprendam em si, com aquilo que tem, a realização de boas atitudes nas suas capacidades, e a pratiquem. O único fundamentalismo do bem é ser bom e praticar o bem com o Todo. Não caias tu na roubada de achares que as práticas humanas estão interessadas em te conectar nesse grau de comportamento fraterno. Humanos tem o interesse próprio, geralmente o sensual unido à somar dinheiro. O bem tem desapego fraterno total. Essa é a escolha que damos. E, ao contrário do que possas pensar, não será difícil de seguir por não termos um local de práticas: nosso local é na atitude de devolver um troco real e justo no preço ao valor que o cliente leva, ao sair da nossa casa. Em qualquer lugar, justo.




By the Ocean_ Morten Lasskogen

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Mochileira












Mochileira deite comigo essa noite
E conte aquela boa velha história
De como as noites são claras em Machu Pichu
E os dias dourados na Califórnia

Moça eu não vou precisar ler na sua mão
Pra saber que você não vai voltar
Pra vida maluca das pessoas
Do mundo
Das formigas tentando se esconder da chuva

Dance mochileira que eu toco a guitarra

Pedro saiu numa barca pro Nepal
Vera estava em Amsterdã
Porque não fazer algo mais divertido que casar com executivos
E acabar achando excitante
A reunião semanal da confraria dos amantes
Das delícias da boa velha tecnocracia

Dance mochileira que eu toco a guitarra

Moça eu sei que não é legal
Ficar sozinha quando o velho medo vem
E essa noite em Cuzco é tão fria
Me passe a garrafa de vinho
Sim, eu posso ver
Que os tempos tem sido maus com você

Mas os Deuses eles sabem
Que valeu a pena segurar essa barra
Moça o céu é seu amigo
Enquando durar essa farra
E depois você é mesmo
Do tipo de cigarra
Que canta na chuva

Dance mochileira que eu toco a guitarra.


composição de Geraldo Roca.


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domingo, 12 de janeiro de 2020

O Espírito Santo




Aquela que completa a trindade !

The Earth Planetarium Code, Mother !












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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

De Como a gente Inicia os Trabalhos









Da nossa singela contribuição em experiência, brasileiros (as) sorriem para ti quando desejam vender. Vender á si mesmos ou, vender produtos. Assim, quando tu começares adentrar na sombra dos guarda-sóis deles, eles (as) irão te queimar vivo, ok. Entretanto, como temos a melhor #lenha das redondezes, adquiras conosco, por gentileza, que ao menos serás queimado com madeira garantida. Fora aquele show, all right. (in-box) _ se o vosso último pedido no corredor do fósforo for #caféespecial e #castanhadecaju, também garantimos o seu melhor momento especial antes da fogueira das vaidades... partiu #vendas .



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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Dessem Melhor cérebro aos meus nervos como rosas

OPIÁRIO

                        Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure,
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smoking-room com o conde —
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co’a sueca... e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.
Queria outro ópio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O facto essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá prò fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma haverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais prò centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co’os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!

                        No Canal de Suez, a bordo.
3-1914
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
 - 135.

domingo, 20 de março de 2011

TUNISIA - Afrique du Nord



DIAS SOMBRIOS. TÚNES



Freder. Catarina.



FREDER PAZ
   Injustiçada enquanto o peito desfazia-se em mágoa! Nas lágrimas da vergonha, assim foi ela arrastada ao cárcere! e agora é prisioneira em um interrogatório sem igual. Não Deus! Essa vida não me quer um ser normal! Enquanto daqui antevejo minha amada, da tua resignação divina privada, és como o pérfido e vil espírito dessa mundana em minha cama!, sendo alfinetada pelos do barco guardiões. os mais carrascos entre os vermes percevejos! Revolve os teus olhos, diabólica! e não penses em pérfido pensamento, neste teu rosto monstruoso, desenhar o sádico momento numa insuportável imagem que tua imaginação doentia e profana, não ouse traçar! Isso tudo me ocultaste!, tua cruel e vagabunda presença me agasta! A tempestade vem e o mar e seus porcos trabalhadores continuam!, amuam-se em suas miseráveis existências que para mim, isso aqui, basta!
   Prisioneira! Agora tomará uma advertência alta, essa que só a Deus tece clemências! Injustiça insuperável para aquele que lhe quer sorridente e adorável! entregue aos chulos oficiais e a justiça profana, teriam os anjos que regem em mais doce cântico, nas mãos das assas aos céus, tornados todos insanos? E tu me embalavas em distrações mundanas e fúteis, escondendo de mim o destino negro que a tangia enquanto me ornava em tua macia orgia! A deixaste arruinar sem ajuda nenhuma!

CATARINA HELM
   Ela não é a primeira.

FREDER PAZ
   Ave! És ave em tua adorável estatura enquanto a todos seduz! Volta-se a ser e voa de novo para o inferno, como vieste a mim num dia de sole terno, observava-te o seu show começar! Eras delicada em pele do soturno animal, que logo não percebi, ao seres negro em ti, o abutre que és. Transforma-te de novo em figura pequena, que esmagar-te poderei no chão até sua ultima pena! Desgraçada! Não é a primeira! Ainda dás-te á ironia! Incompreensível é, a qualquer dos justos, que mais de uma das santas haja caído em tenebrosas teias, agentes, oficiais do caralho! sem que dessa injustiça hajam mudado as regras! Tem mesmo todos as caras de carvalho negro. Isso me estraçalha a resignação e a vida do mar. dessa ruína era a única criatura que isso não merecia! E vos encarniceis impassíveis ante os destinos de milhares! Queria ver um de vos ao mar entregues sem botes vidas alhures!

CATARINA HELM
   Eis que nos encontramos nos limites da loucura outra vez! No auge do monte onde o bonde perde por completa a razão, pergunto-lhe uma por vez. Porque fazes acordo com o Mago se não podes cumprir? Não te sentes seguro ante a vertigem? Acaso fui eu que te procurei, ou ao contrário, foste tu que vieste a mim babando, intocável rei?

FREDER PAZ
   Não apertes tuas unhas vorazes contra minha pele! Enojas-me! Oh espírito libidinoso que levantaste em mim tais hediondos desejos, por que deixas-te que se aproximasse de mim tal egoísta criatura? Não me alertaste que ela se alimenta da desgraça e se ceva com destroços?

CATARINA HELM
  Terminou!

FREDER PAZ
   Que caiam maldições sobre ti por toda eternidade!

CATARINA HELM
   Não posso no julgamento da inútil fazer parte. Salva-a! quem a colocou nesse abismo, eu ou tu?

(Freder olha em redor com rancor.)

   É justo que tais decisões não tenham sido dadas aos tolos tripulantes! Destroçar uma inocente que encontra por ai, isso é arte para renomados tiranos, quando querem livrar-se da terna bondade.

FREDER PAZ
   Leva-me até ela! Onde é a nefasta sala?

CATARINA HELM
   Pensas no perigo a que te expões! É preciso que saiba que ronda pelo navio, na nobre tirania, rumor que és hábil em estratégia e desejas a ordem mudar. Quer a todos tua sabedoria impor!

FREDER PAZ
   Não me importa mais que redundam essas palavras a tanto execradas. Conduze-me até lá!

CATARINA HELM
   Conduzo-te!, contanto escutas o que devo fazer! Tenho eu muito poder sobre o céu e a terra nesse barco. Ao guarda da porta pretendo seduzir, seus sentidos são tolos e será fácil o redimir! Entras com calma e conduz a jovem educadamente para fora, para que possam conversar. Os pós mágicos estão prontos e vos guiarei! É tudo que posso fazer.

FREDER PAZ
   Vamos daqui e rápido!







NOITE.


EM PLENA PRAÇA TUNÍSIA.



Freder e Catarina caminham pelos corredores até os negros aposentos do Security Office.



FREDER PAZ
   Parece um prostíbulo! Por que ao redor tanta gente?

CATARINA HELM
   O que compreendes disso? Aqui o meu coração já ferve!

FREDER PAZ
   Sobem e descem; se inclinam e rumam capciosamente!

CATARINA HELM
   Intensa drogaria! É o centro do feitiço!

FREDER PAZ
   Algo refina e consagram de forma extravagante!

CATARINA HELM
   Passemos rápido! Adiante!







CÁRCERE


EM CARTAGO.



Do Desembarque.


FREDER PAZ (no corredor em frente á sala de reuniões onde se encontram Verônica, os oficiais e o capitão.)
 
   Essa desgraça em volta desatina
   Atrás da parede alguém domina
   Numa cela doentia onde da vida arruínas,
   Hesitas a buscá-la! mesmo sendo o crime dela fantasia!

                  (segura o trinco e escuta do interior)

   Esse navio, senhor tratante,
   Minha alma destroçou!
   Em terra fria eu era serena!
   Vivo agora como se cumprindo pena.
   No mar, à proa, no mar!
   Nos intervalos a me revoltar.

FREDER PAZ (entrando na sala)
   Não quero levem-me á suspeita,
   Estou aqui, aquele que há meses o senhor espreita!
   Que as correntes façam ruídos,
   Mas desejo ser ouvido!

VERÔNICA (escondendo o rosto com suas mãos)
   Terror! Já vêm! Mas que desembarque amargo!

FREDER PAZ (suavemente)
   Calma e em silêncio venho somente chamar-te,
   Quero te livrar disso, e uma oportunidade dar-te.

VERÔNICA (estorce-se na cadeira)
   Por que se compadece com tanta compostura?

FREDER PAZ
   Despertas assim os risos desses guardas da corte!

(tenta levantá-la puxando-a pelas mãos)

VERÔNICA
   Quem te deu tão alto poder
   Sobre o meu pobre ser?
   Buscar-me ao meio-dia!
   Apieda-te e deixa-me ficar,
   Em pleno alvorecer, não poderei desembarcar!

              (levanta-se)

   Sou tão jovem e querem-me descer!
   Não me agarre assim, com força, com mãos pesadas!
   Fiz mal? estou tão arrependida ao erro alada!
   Não faça-me que implore em vão e amargura,
   Não lembro-me jamais ter visto tua figura!

FREDER PAZ
   És minha conduta suportar tua postura!

VERÔNICA
   Entrego-me vencida e não tenho esperança.
   Contanto dizem que é só do início a lança,
   Nunca mais no mar, trabalho eu terei!
   Gente má a perseguir-me, o sei.
   Quem aplica a mim?

FREDER PAZ
   Escuta-me e saias desse choque!
   Venho levar-te da dor e desse cativeiro,
   Antes fosses dos nobres nalgum veleiro!

VERÔNICA
   Oh, deixa-nos de joelho!
   Invoco e louvo ao Altíssimo primeiro.
   Abaixo dos pés estive observando da soleira,
   Fervem e borbulham nesse inferno a poeira!
   É o infernal demônio, distribuindo o pó medonho.
   Furiosos e terríveis, fazem algazarras incríveis!

FREDER PAZ
   Verônica! Oh, Vero!

VERÔNICA
   É a voz dele, tão alta e querida!
   Onde está? Eu ouvi me chamava!
   Liberta, estou livre!
   Como me levaste do catre?
   Quero enlaçar-me em seus braços,
   Voar pelos sete mares,
   Em seu peito o meu peito descansará!
   Disse ele Verônica.
   Estou disposta, aqui e Vero,
   Em meio do clamor e infernal zombaria,
   Entregar-me ao doce amargo, atroz ironia!

FREDER PAZ
   Sou eu!

VERÔNICA
   És tu! És tu! Dize-mo de novo!

                            (abraça-o)

   Afasta o sofrimento, o horror à prisão!
   Vieste enfim! livrou-me da tormenta.
   Acaso sem receios, pega-me e violenta!
   As ruas árabes já enxergo lá embaixo,
   Onde a primeira vez esbarrei-te de repente.
   E os camelos tão risonhos,
   Venho em mente,
   Lascivo e repuxo
   Sonho!

FREDER PAZ
   Vem comigo! Vem!

VERÔNICA
   Aguarda e te detém,
   É um prazer esperar quando esperas.

                    (acaricia Freder)

FREDER PAZ
   Devemos apressar!
   Senão teremos um castigo guardado!

VERÔNICA
   Como? Não sabes mais beijar-me?
   Não queres mais amar-me!
   Por que terias receio junto a ti
   Que todo o céu junto a mim eu vi?
   Agarrava-me então quase a sufocar.
   Abraça-me,
   Enlaça-me
   Senão o faço eu!

                   (abraça-o)

   Que lábio frios de horror!
   Muitos gelados, estarias transtornado?
   Quem arrebatou o teu antigo calor?

                    (afasta-se dele)

FREDER PAZ
   Vem! Segue-me e não tenhas medo.
   Mil vezes te quero com profundo credo!
   Acompanha-me logo, não vês que te rogo?

VERÔNICA
   Não te reconheço mais com certeza!

FREDER PAZ
   Sou eu! escuta-me com clareza!

VERÔNICA
   Liberta-me das velas desta prisão.
   Podes-me aconchegar em tua ilusão?

FREDER PAZ
   Vamos que a noite densa já clareia!

VERÔNICA
   Por que tuas mãos estão umedecidas?
   Se não estou enganada, vejo-as mordidas?
   Ah Deus!, que fizeste! Horror!
   Recolhe a tua espada, peço-te, por favor!

FREDER PAZ
   Esqueces o que ficou para trás.
   Assim me obrigas ficar sem paz!

VERÔNICA
   Não! não deves descer!
   Ninguém mais ficará assim perto de mim!
   És como se me expulsasses da tua companhia,
   Mas por baixo ainda reconheço-te, terna energia!

FREDER PAZ
   Se nota que sou eu, então vem agora!

VERÔNICA
   Queres levar-me para fora?

FREDER PAZ
   Sim. Para a liberdade!

VERÔNICA
   O mundo árabe está espreito e escuro.
   Vais embora? Oh Paz! É atroz deixar-te!

FREDER PAZ
   Poderás, se o desejas! A ponte está aberta!

VERÔNICA
   Não deverei sair. Não terei mais futuro.
   Daqui fugir, isto é inseguro!
   Oh miséria sem fim, vagar em terra estranha!
   Oh miséria profunda, mendigar à gente imunda!

FREDER PAZ
   A teu lado prosperarei!

VERÔNICA
   Figura-te! Há com quê salvar-te?

FREDER PAZ
   Desse sonho de barco desperta!
   Um passo a mais e estarás liberta!

VERÔNICA
   Vejo-me sentada a mão sobre um rochedo;
   Sinto um calafrio que me revolve a sanha!
   A cabeça pesa, tenho eterno medo!

FREDER PAZ
   Sou forçado a tomar-te então com violência!

VERÔNICA
   Deixa-me, não e não! desprezo a força e o abuso!
   Não pega-me assim, tal fosso criminoso!
   Outrora não te deste amor, libidinoso!

FREDER PAZ
   Começa escurecer, querida! Vem, querida!

VERÔNICA
   Cada dia surge a aurora ardente como todas.
   Não digas a ninguém que conheceste Verônica.
   Ver-nos-emos ainda o creio em silêncio.
   Lá embaixo a multidão comprime-se
   Em praças e ruas o comandante redime-os.
   Bombardeios irão, até quando os conterão?
   Tudo me alucina e devo ao corpo render,
   O mundo, qual sepulcro, é indiferente e mudo!

FREDER PAZ
   Ah antes eu nunca tivesse subido!

CATARINA HELM (surgindo do lado de fora)
   Vamos embora daqui já! Senão estás perdido!
   Os ares da aurora aparecem
   E nos mares descerra!

VERÔNICA
   Quem se ergue da terra?
   É ela, é ela! Manda-a embora!

FREDER PAZ
   Deves viver!

VERÔNICA
   A justiça do navio ora me entrego!

CATARINA HELM (para Freder)
   Ou vens agora ou deixo-vos, os dois!

VERÔNICA
   A Ti pertenço fastidioso Mar!
   Qual vós anjos das cabines a limpar.
   Em derredor protegei-me e guardai-me!
   Freder, eu te contemplo, agora horrorizada!

CATARINA HELM
   Ela foi deixada!

VOZES VINDAS DO ALTO

Abandon ship! Abandon ship!


CATARINA HELM (para Freder)
   Vem comigo!

                       (desaparece com Freder)

VOZES (de dentro, sumindo)
Freder! Freder!

 



 

 tunis
 tunis
tunis
 tunis
 tunis
 tunis
 Tunisia

 la Medina - Tunisia



 Tunisia

 tunes -tunisia - afric


Tunisia - Afrique du Nord

Tunisia - Afrique du Nord

 

 o autor, Chaplin e o garoto. Túnes - Tunisia.

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EXTRAS.




rotina infernal soberana: eu, Justos e o wine seller

 comemorando reveillon 2010

à mesa os milagres: temporada Europa 2010




FIM


sábado, 19 de março de 2011

NOITE DE WALPÚRGIS - Broadway



A NOITE DE WALPÚRGIS


                                                        O espetáculo no Salão Broadway do navio está sendo montado. Presentes Freder e Catarina.



CATARINA HELM
   O palco ainda está longe!
   Estes caras trabalham feito monge.

FREDER PAZ
   Imenso prazer inspira tais estréias,
   Porque, do nosso ser, somos platéias!

CATARINA HELM
   Para dizer-lhe a verdade, nada disso me interessa!
   Do meu corpo domina uma permanente pressa.
   Desejo ver na entrada a neve, o gelo eterno!

   Como alça medonhamente o holofote ao teto.
   Reflete muito mal e no palco é reto.
   Esbarra num entrave ou nalgum difusor,
   Deixa-me que avise o nobre produtor:
   - Ei, amigo! Acompanha-nos daqui convido-o,
   Por que brilhas em vão pelo palco como borracho?
   Que segue uma luz difusa, está feio, acho!

VOZ DE AVISO
   Céus! Tudo faça para que o vejamos iluminado!
   Dança de luz componho, e não as tenho no tablado!

CATARINA HELM
   Boçal, viste, comporta-te direito!
   Trata quem avisa com mais respeito!
   Bem saiba que sou senhora desses lares,
   Posso te conduzir humilde pelos ares!
   Esteja certo de que não quero humilhá-lo.

FREDER, CATARINA, VOZ DE SEGURANÇA (falam alternadamente)
   Nas esferas de sonho vamos ao palco criá-lo.
   Conduze-nos e orienta para que forte sigamos.
   Ostenta que o céu, do espaço vazio, logo o tornamos.

   Na frente vejo árvores, só árvores!
   Sublima atrás os pontiagudos rochedos,
   Traz ao conjunto do palco graves entraves.

   Como roncam e zunem crescendo os medos!
   Lindos rios, ouço o som dos riachos,
   Doces mortais, são vozes celestiais!
   O canto refaz ecos de outrora. Escutamos.

   Estão todos despertos?

   Multicores multidões de zoadores,
   Correm na lama feito os insetos roedores!

   Mesmo assim os espaços vão se enchendo,
   Que por vos tenho laços; amor tremendo!
 
   Nessas alturas achas que é bom parar?
   Ou se agita em volta e vibrando queres avançar?

CATARINA HELM
   Posso ver com euforia e manha,
   De Mammon o meu seio olhar da poltrona!

FREDER PAZ
   Dos despenhadeiros, nas profundas entranhas,
   Reflete-se e rebrilha ardente a toda hora.
   Surgem chamas de fumo; afloram brumas,
   Que lhe brotam os sumos; exalas á amora!

   Une-se novamente em pequenas convulsões,
   Olha além! No fundo se incendeiam ternas ilusões!

CATARINA HELM
   Oh grande rei Mammon, eis o teu palácio adorado!
   Pressinto que ali entra um tripulante agitado.

FREDER PAZ
   Em incontido alvoroço, golpes vem aplicar ao moço.

CATARINA HELM
   A nuvem escurece ainda mais a peleja.
   Escuta como estalam nas colunas!
   Galhos tremem e quebram, aquele planeja
   Apavorar com grunidos ao dançarino em plumas!
   Enroscam-se ao cair, e nas grutas sombrias,
   Ouço vozes que vibram em ventanias.
   De certo, é um Alto desconcerto!

VOZ DE AVISO
   Ao inferno com pressa!
   Arranharam-se todos, ora essa!
   Por que tanta confusão e tamanha agitação?
   Todos! ai rastejando como caracóis,
   Abrandem esses nervos ou estareis em negros lençóis!

   Quem do abismo vos chama assim em sobressalto?

   Quem até hoje a torre elevar-se não pode,
   É porque merece continuar no chão, feio e podre!

   Não tenho mais sossego!
   A droga dá coragem para qualquer farrapo.
   Logo essa embarcação será um trapo.
   Quem hoje não sair, não terá nenhum arrego!

CATARINA HELM
   Isso tudo me empurra, atrai, estonteia.
   Brilho, rebrilho, revolve-me; a confusão me incendeia!

   Agarra em mim! senão no separamos!
   Onde mesmo estamos?

FREDER PAZ (distante)
   Estou aqui? Vamos! Vamos!

CATARINA HELM
   Afasta gentalha! Fora! Agarra em mim agora!
   Convém não expor-me ao pêlo.
   Fujamos já desse atropelo!
   Sinto estranha atração por aquele boçal.
   Vem, vem, deslizemos devagar adiante!

FREDER PAZ
   É estranho que na Noite de Walpúrgis nos alcemos.
   Por aqui, por prazer, calados restemos!

CATARINA HELM
   Contempla ao longe as chamas coloridas,
   Unir-me em público, foi-me sempre a saída!
   Nunca se está sozinho, enquanto em mim se junta.

FREDER PAZ
   Daqui já vejo os brilhos; as espirais do fumo.

CATARINA HELM
   Fiquemos aqui em sossego profundo.
   Grandes e pequenos hão gerado,
   Vejo-os todos nus, atrelado
   Até às velhas astutas, muito cruas!

   Sê bondoso e agora atende o meu pedido:
   Um pouco de esforço a farra,
   Ouça o som do instrumento,
   Em alarido, em algazarra, agarra-me!

   Convém acostumar-te,
   Vem comigo e já, não haverá outro meio!
   Vou à frente e oriento e vai deliciar-te.

   Que dizes, tu, amigo?
   Haverá no mundo algo melhor?

FREDER PAZ
   Vais agir como mágica ou como demônio?

CATARINA HELM
   Em dias de gala costumo ser o pandemônio.
   Bem lenta e tateante algo em mim tem que fareja;
   É impossível negar-me; manter-me em recato à cereja!
   Vamos, da fogueira nós coramos!

(dirigindo-se a alguns sentados nas poltronas fumegantes)

   Oh senhores senis, tão tristes e decadentes,
   Muito vos trataria se estivésseis contentes!
   Mas em companhia de ardente juventude,
   Nada de ficar em cabine: no convés há muito mais virtude!

CAPITÃO
   Quem pode confiar nas monções,
   Por elas se hão sofrido tais provocações!
   Com tripulantes ter prestígio – a falar a realidade –
   É dentre as mulheres, a que ages com mais promiscuidade!

SECURITY OFFICER
   Estamos em dias distantes do direito,
   Completamente destituídos da razão.
   Lembro dos tempos de outrora, da emoção.
   Bem outro era o valor, e maior o nosso conceito!
   Venturosa e desdenhosa! És formosa a gostosa.

FIRST OFFICER
   Não éramos tão loucos quanto queríamos.
   Às vezes sem querer coisas tais fazíamos.
   Hoje é tudo desordem e devassa indisciplina!
   Sigamos assim: das drogas até as ruínas.

AUTOR
   Quem lerá hoje esse desdém rimado?
   Não me pareço sério e nem bem ornado.
   E a cara juventude, em tudo que se empenha,
   Mostra-se sem interesse e também pretensiosa!

CATARINA HELM (anda como se fosse uma velha)
   Para o Juízo Final estamos imaturos.
   O mundo vai assim, velho e seguro.

   Há taças que servi bebidas venenosas,
   Que lábios sorveram-me em babas pegajosas.
   As jóias que suas esposas perverteram,
   Aqui no meu corpo abateram!

   Somente a novidade atrai os velhos, e os porcos!

FREDER PAZ
   Não percamos tempo com toda essa asneira!

CATARINA HELM
   Tu julgas arrastar, mas és sempre arrastado.

FREDER PAZ
   E quem é aquela?

CATARINA HELM
   Quem observas é Lolita, a bela!

FREDER PAZ
   Quem?

CATARINA HELM
   A primeira puta do oficial Adão!
   Observa o primor de seus encantos:
   Belos e encaracolados cabelos são
   A tortura ao homem em sobressaltos!
   A adornam até luzir, e ela continua a seduzir.

FREDER PAZ
   E essa velha e essa jovem, aqui sentadas.
   Vê-se que ambas são muito bem tratadas!

CATARINA HELM
   Essa embarcação tornou-se desassossego, perdição!

FREDER PAZ
   Dois colares nela brilhavam,
   Atraiam-me e me tentavam!

A BELA
   À jóia te seduz desde os tempos do Paraíso!

CATARINA HELM
   Até mim mesma me aprazia.

A VELHA
   Isto é uma afronta de permissividade!

CATARINA HELM
   Aquieta-te! que não tens mais idade!

HOTEL MANAGER
   Que ruídos são esses dessa maldita!
   A ti hei provado não faz muitos meses.
   É impressionante como a todos se atreves.
   No entanto transas bem, dos pés à lambida!

A BELA
   Que desejas essa intrusa em nosso baile?

FREDER PAZ
   Ela é onipresente, está em todo o barco!
   Costuma estimular com tal arco,
   Arte, trejeitos e danças em xale!

   Às vezes é hostil se rápido avança,
   Com todos em seu moinho prende e lança!

   Assim, mesmo que desgosta e acha não estar bom,
   Aprecia homenagens todas em alto tom!

HOTEL MANAGER
   É espantoso o quanto gozemos.
   A diabólica é infensa à disciplina.
   Também és dos espertos e doentes, sabemos!
   Tamanhas ilusões quase nos jogam à ruína.

A BELA
   É hora de parar! Está a incomodar-nos!

HOTEL MANAGER
   Minha posição não permite tal impostura.
   Logo farei a viagem divertida,
   E para os poetas e diabos não haverá saída!
   Pertenço, sem dúvidas, a outro tipo de cultura.

CATARINA HELM
   Lembras de como costuma aliviar-se em minha cama!
   E de sanguessugas foi-se o espírito limpando.
   Ficavas gritando e lambuzando-se em minha lama.
   Agora desfila com a mocinha ao lado,
   Sempre soube, nunca deixarias de ser tapado!

FREDER PAZ
   De sua boca se lança um morganho irado!

CATARINA HELM
   Quem pergunta por isso em horas de luxúria?

FREDER PAZ
   Digo-te mais: nunca hei visto!
   Poderia ter um pouco mais daquela miragem?

CATARINA HELM
   Inalar de novo agora não convém!
   Se teu sangue gela poderás transformar-te em granito.
   Nunca ouviste falar de tamanha overdose, acredito?

FREDER PAZ
   Falta lhos luz da vida...
   Chegaria a ver; tocar Verônica.

CATARINA HELM
   Tolo impressionável! Enxergas do pó miragem!

FREDER PAZ
   Não posso desse olhar libertar-me um momento!
   No pescoço és adornada, feito fio de lamina aguçada.

CATARINA HELM
   Sempre há prazer em contemplar a menina.
   Vamos que te levo do corredor à cabina!
   Adocemos no prazer a doce paragem,
   Pois ilusões ou não, estamos no teatro!

SECOND OFFICER
   Iniciemos o ato final, dos sete, o derradeiro!
   É costume daqui mirar-se o programa inteiro.
   São mesmo tripulantes a representá-los!
   Senhor, perdoai! Retirar-me preciso.
   A mim produz prazer subir o pano,
   E o faço em um segundo.

CATARINA HELM
   Façam sobre o palco e no fim encontrai-vos.
   Esse é o nosso próspero mundo!







SONHO DA NOITE DE WALPÚRGIS



                           Na sala de espetáculos Broadway, entradas pelo quinto e sétimo deck. Apresentação de alguns tripulantes.




CRUISE DIRECTOR
   Caros, sois todos convidados,
   Enfim, este é o circo armado!

BEAUTY SALON MANAGER
   Procuram-me querendo vossa aparência melhorar,
   Mas o que me interessa é o ouro-de-tolo vos levar!

CASINO CROUPIER
   No black jack ou com o rei,
   As fichas todas para banca retornarei!

CASHIER
   Já venham com o dinheiro trocado
   E os bolsos em torno arrastados!

SOCIAL HOSTESS
   Os caras feios causam espantos
   Quando para mim olham demais!

DISC JOCKEY
   Tocar psy não aguento mais
   Para que dois se amem: um bom samba!

FITNESS INSTRUCTOR
   Agarrai-vos com força de arromba,
   E assim levantam os pesos a valer!

CHIEF ENGINEER
   Conserto máquinas, mas sou musicista!

CANTOR
   Pois todos aqui não passam de artistas.

DANÇARINO
   Alguns com mais poesia, certo,
   Enquanto outros dão azia de perto!

MÚSICOS DA BANDA
   O que aqui tocamos são coisas de aprendiz,
   Interessa-nos mesmo ir para Itália com a meretriz!

PIANISTA
   Pura má sorte que vos arrasta,
   Já que são todas degeneradas!

VIOLINISTA
   O compasso conserva em regra!

GIFT SHOP MANAGER
   Atendo aos jovens belos cada qual
   Cheios de bolsas e esperanças, sem tonal!

CHIEF HOUSEKEEPER
   Da suas cabines ao despertar
   Pro inferno vou fugir!

HEAD ROOM STEWARDESS
   Uns insetos parecemos!

DOUTOR
   Olhai-vos em confusão
   Quem tem um bom coração?

ENFERMEIRA
   Entre bruxas tão confusas
   Tenho o prazer em perder-me!

PHOTOGRAPHER
   Esse homem que agita,
   Qual o nome do orgulhoso?

OS ESPERTOS
   Fazemos á máfia nas águas puras.
   Homens devotos sem tais ternuras,
   Aos revoltos somos estranhos,
   Sem perguntar nos afrontam como diabo
   E vamos levando sem tais banhos
   Ao certo hoje sou louco e me acabo!
   A existência nos desgosta
   Sois todos a mesma besta
   E na vida é a prima volta
   Que nos pés não nos firmamos
   Quando o mar se pega em revolta
   É cada qual no seu canto sem tino!
   Quê, prazer aqui? – um sonho!
   Que me alegro nesses ritos
   Vemos existência no demônio
   Isso aqui é dos bons espíritos o riso!

OS INERTES
   Das calmarias seguimos o rumo,
   Logo mais aqui vos aprumo!

OS MASSAS BRUTA
   Oh diletantes malditos,
   Um pouco de trabalho mal não faz aos mosquitos!
   Pareceis até os musicistas!
   São pessoas que espairecem,
   Dos pés não mais obedecem,
   Sobre nossas cabeças, os tais artistas!

MAESTRO
   Verdade seja dita: bons pedaços comemos.
   Contanto não fomos bem nascidos,
   E nesse círculo infernal comporemos
   Belas trovas de muitos já esquecidos!

ORQUESTRA
   Espaços em redor, muito espaços desejamos!
   De mais leves espíritos nos privamos.
   Aclara a densa neblina
   A nuvem negra se esvaece
   O do que mesmo disso gostaríamos
   É que dos tripulantes, ninguém
   Depois desses bufantes
   Deixe essa sala ileso; do mais nos esquece!

   Canto o vento pelo casco
   E tudo fica em riso ou asco!

   É assim a vida de barco.

   Amem mar!




...